COISAS INÚTEIS
- Curso Escriba
- 26 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de mar.
O CATADOR
Um homem catava pregos no chão. Sempre os encontrava deitados, de comprido ou de lado, ou de joelhos no chão. Nunca de ponta. Assim eles não furam mais, pensava o homem. Eles não exercem mais a função de pregar. São patrimônios inúteis da humanidade. Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados. Acho que essa tarefa lhe dava algum estado. Estado de pessoas que se enfeitam com trapos. Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Garante a soberania de Ser mais do que Ter.
(BARROS, Manoel de. Tratado geral das grandezas do ínfimo.)
“Que tolice! Ensinar coisas inúteis, quando o tempo nos é avaramente medido”. (Sêneca).
E quantas coisas inúteis fazemos! A começar pelas aulas. Vejamos:
Os professores de Química querem que os meninos aprendam sobre átomos e moléculas, quando eles buscam compreender outras “ligações” — muito mais interessantes — que não as covalentes.
Os de História explicam a importância da Via Ápia, quando o que interessa é saber o caminho mais curto entre a casa e o shopping.
Os de Matemática ensinam equações, vetores, forças, incógnitas, quando o único X que importa é o de Matrix ou do X-Men.
Nas Ciências, os professores ainda não entenderam que o crescimento das sementes ou a fotossíntese são tão interessantes quanto uma salada de chuchu — o que importa mesmo é o que ocorre lá no fundo da sala.
Os de Geografia tentam despertar interesse por Bagdá ou pelo Nordeste, quando a janela da sala é o horizonte mais distante.
Os de Português querem ensinar literatura e conjugação de verbos, quando o único verbo que interessa é ficar.
Os de Educação Física (únicos no caminho certo!) são adorados pela física dos corpos.
Os coordenadores conversam com cada um, pacientes, na esperança de que acatem seus “sábios conselhos”.
Viram como somos inúteis?
Mas… mas…
Também sabemos que nossos alunos podem aprender Química, História, Matemática e tudo mais em qualquer escola — e quando quiserem. Sabemos que eles não se preocupam apenas com futilidades: estão vivendo seu tempo. E se esse tempo é de shopping, de ficar, de baladas, também é de terrorismo, sequestros-relâmpago, insegurança e incertezas.
Cabe a nós, professores, conscientes disso, dar-lhes algo mais. Por isso:
Os de Química mostram que as ligações mais importantes são invisíveis a olho nu; que não há fórmula para o amor, mas cabe a nós misturar seus componentes para sentir seu perfume.
Os de História ensinam que a ignorância é o caminho mais curto, mas o do conhecimento é longo e tortuoso; que o mesmo país que gerou Trump também gerou Thoreau, cuja Desobediência Civil inspirou Gandhi.
Os de Exatas revelam que somar, dividir e multiplicar são formas de nos relacionarmos com o mundo — como na parábola dos talentos, não devemos enterrar nossos dons, mas multiplicá-los.
Os de Ciências provam que o maior fenômeno é a própria vida — “mesmo que seja uma vida como esta, Severina”.
Os de Geografia ensinam que conhecer a si mesmo é mais difícil que conhecer outros países.
Os de Português lembram que a poesia está aí: basta “ouvir o rio correr”.
Os de Educação Física resgatam o equilíbrio entre mente e corpo, como os gregos antigos.
Os coordenadores multiplicam amor incondicional, como pais que não dão pedras a filhos que pedem pão.
Preferimos ensinar coisas inúteis. Coisas que não tornam nossos alunos mais ricos, bonitos ou fortes, mas mais inteligentes, solidários e felizes. Não jogamos o jogo do mundo pragmático, onde tudo tem valor imediato, monetário e descartável.
Continuaremos ensinando coisas inúteis. Só assim garantiremos a eles a “soberania de Ser mais do que Ter”.
(Professor Edson Nunes Ferrarezi | Pensar dói.)
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