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COISAS INÚTEIS

Atualizado: 10 de mar.

 

O CATADOR


Um homem catava pregos no chão. Sempre os encontrava deitados, de comprido ou de lado, ou de joelhos no chão. Nunca de ponta. Assim eles não furam mais, pensava o homem. Eles não exercem mais a função de pregar. São patrimônios inúteis da humanidade. Ganharam o privilégio do abandono. 


O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados. Acho que essa tarefa lhe dava algum estado. Estado de pessoas que se enfeitam com trapos. Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

(BARROS, Manoel de. Tratado geral das grandezas do ínfimo.) 


“Que tolice! Ensinar coisas inúteis, quando o tempo nos é avaramente medido”. (Sêneca). 


E quantas coisas inúteis fazemos! A começar pelas aulas. Vejamos:

  • Os professores de Química querem que os meninos aprendam sobre átomos e moléculas, quando eles buscam compreender outras “ligações” — muito mais interessantes — que não as covalentes.

  • Os de História explicam a importância da Via Ápia, quando o que interessa é saber o caminho mais curto entre a casa e o shopping.

  • Os de Matemática ensinam equações, vetores, forças, incógnitas, quando o único X que importa é o de Matrix ou do X-Men.

  • Nas Ciências, os professores ainda não entenderam que o crescimento das sementes ou a fotossíntese são tão interessantes quanto uma salada de chuchu — o que importa mesmo é o que ocorre lá no fundo da sala.

  • Os de Geografia tentam despertar interesse por Bagdá ou pelo Nordeste, quando a janela da sala é o horizonte mais distante.

  • Os de Português querem ensinar literatura e conjugação de verbos, quando o único verbo que interessa é ficar.

  • Os de Educação Física (únicos no caminho certo!) são adorados pela física dos corpos.

  • Os coordenadores conversam com cada um, pacientes, na esperança de que acatem seus “sábios conselhos”.

Viram como somos inúteis?


Mas… mas… 

Também sabemos que nossos alunos podem aprender Química, História, Matemática e tudo mais em qualquer escola — e quando quiserem. Sabemos que eles não se preocupam apenas com futilidades: estão vivendo seu tempo. E se esse tempo é de shopping, de ficar, de baladas, também é de terrorismo, sequestros-relâmpago, insegurança e incertezas.

Cabe a nós, professores, conscientes disso, dar-lhes algo mais. Por isso:


  • Os de Química mostram que as ligações mais importantes são invisíveis a olho nu; que não há fórmula para o amor, mas cabe a nós misturar seus componentes para sentir seu perfume.

  • Os de História ensinam que a ignorância é o caminho mais curto, mas o do conhecimento é longo e tortuoso; que o mesmo país que gerou Trump também gerou Thoreau, cuja Desobediência Civil inspirou Gandhi.

  • Os de Exatas revelam que somar, dividir e multiplicar são formas de nos relacionarmos com o mundo — como na parábola dos talentos, não devemos enterrar nossos dons, mas multiplicá-los.

  • Os de Ciências provam que o maior fenômeno é a própria vida — “mesmo que seja uma vida como esta, Severina”.

  • Os de Geografia ensinam que conhecer a si mesmo é mais difícil que conhecer outros países.

  • Os de Português lembram que a poesia está aí: basta “ouvir o rio correr”.

  • Os de Educação Física resgatam o equilíbrio entre mente e corpo, como os gregos antigos.

  • Os coordenadores multiplicam amor incondicional, como pais que não dão pedras a filhos que pedem pão.

Preferimos ensinar coisas inúteis. Coisas que não tornam nossos alunos mais ricos, bonitos ou fortes, mas mais inteligentes, solidários e felizes. Não jogamos o jogo do mundo pragmático, onde tudo tem valor imediato, monetário e descartável.

Continuaremos ensinando coisas inúteis. Só assim garantiremos a eles a “soberania de Ser mais do que Ter”.

(Professor Edson Nunes Ferrarezi | Pensar dói.) 


 
 
 

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